quarta-feira, 4 de agosto de 2010

“Eu tenho medo desse negócio de ser normal”

NORMAL.  O que é uma pessoa normal? O que é normalidade? ... É o que eu me perguntei por muito tempo, e na boa, não consegui essa porra de definição, mas cheguei a uma conclusão.
Vamos comparar duas pessoas: uma garota que use roupas casuais, comuns, tem seus estudos, uma vida social agradável, um namorado... Tem uma vida considerada comum. Pensemos agora em outra garota, que se vista com roupas bem diferentes (camisas de rock, calças rasgadas, correntes etc.), tem um cabelo rosa, tem seu grupo de amigos restrito a sua tribo, um namorado que se vista da mesma maneira que ela, tenha vários piercings e tatuagens pelo corpo, enfim.
Se eu te perguntar: Qual das duas é normal? Bem provável que me responderia que é a primeira garota, lógico.
Mas ai eu te perguntaria novamente: E o que faz dela “normal”? Porque a maneira que ela age, vive, é normal? Qual é a normalidade disso?
Se você conseguir me responder isso, por favor, o faça, porque eu mesma não consegui responder. A única coisa que consegui fazer a partir de tudo isso é tirar uma mera conclusão.
A sociedade tem uma imagem formada de alguém “normal”, um sinônimo de “normal” nesse caso seria “aceitável”, ou seja, pra se aceitar alguém, tal pessoa tem que cumprir os critérios que a sociedade impõe. Critérios de como a tal pessoa deve agir, como se vestir, do que deve ouvir (música), do que deve se ocupar, seu grau de inteligência, sua opção sexual, até mesmo de como e quando cagar.
Caso alguma pessoa não cumpra esses critérios, ela é considerada anormal, revoltada, louca, vagabunda, demente, e o que é muito comum nos dias de hoje: drogada, ela pode não ser drogada de fato, mas se tiver algumas tatuagens pelo corpo e umas roupas pretas, é o suficiente pra ser uma. Ou seja, ela não é aceita tão facilmente pela sociedade.
Um exemplo disso são as empresas que não contratam candidatos que tenham piercings e/ou tatuagens. Outro exemplo é quando alguma pessoa resolve se relacionar sexualmente com pessoas do mesmo sexo, ou resolve se vestir com as roupas típicas do sexo oposto, ou até mesmo mudar de sexo. As pessoas consideradas comuns acabam achando isso uma pouca vergonha, para as mais religiosas, obra do capeta.
E o que tudo isso sugere? Que o ser humano é tão estúpido que se deixa enganar pelas aparências. E que saem do estado da estupidez e passam para idiotice crônica quando se submetem a esses critérios, simplesmente pra serem aceitos pela sociedade, caso contrário entra em depressão e o caralho a quatro.
Lugar muito comum de se ver isso é na escola. Pensemos naquele cara que estuda muito, está sempre lendo, tira boas notas... Isso é uma coisa boa certo? Mas mesmo assim ele é tachado de nerd, CDF, blábláblá. O grande alvo mesmo são as pessoas mais “gordinhas”! Basta você estar alguns quilos acima da média e já começam as zuações do tipo: bolinha de queijo, almôndega, Tio Fill, comparações com bolas, alguém dizendo: “vishe, fulano vai pular, vai ter um terremoto, cuidado!” , e várias outras. Vá por mim, criatividade para isso não falta para a grande maioria.
Agora, qual é a normalidade de tudo isso?
Essa questão de ser “normal” é mais uma das grandes idiotices que a sociedade sustenta, e nem ao menos percebem isso, já que agir assim é tão natural. Digamos que essa “normalidade” é apenas mais um tipo de merda que direciona a porra da sociedade.
Como Lennon dizia: “Eu tenho medo desse negócio de ser normal”.

de Quino, Potentes, prepotentes e impotentes, ed. Teorema, Lisboa 2004 (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA AMPLIADA)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Filme particular

"In my brain, oh I can see you face again, I know my frame of mind, yeah. But nobody, nobody has to ever be so blind". - Janis Joplin

Capa do álbum Woodstock 69; casal Nick e Bobbi Ercoline.

O dia estava terminando, Sophia estava em seu apartamento na zona sul de São Paulo, com os pés para o alto e tomando uma xícara de chá. Seu dia havia sido corrido e cansativo, como sempre.
Naquele momento ela assistia a um filme, filme muito particular esse, restrito a seus olhos, apenas, e produzido por suas lembranças. Lembranças do Woodstock 69.
Suas lembranças não falhavam, ela se recordava muito bem da chuva, da lama, das drogas, da multidão, dos shows... E se lembrava também de John.
Naquela época Sophia tinha ido passar uns tempos em Nova York quando estourou a noticia de que iriam fazer um festival de rock na fazenda Bethel. Sua amiga, Martha, estava decidida a ir ao festival, e levou Sophia junto.
John era um hippie vindo de Seatle, pouco se sabia dele. Ele dizia que era um desconhecido para si mesmo. Ele havia conseguido chegar a NY pegando caronas.
Logo na entrada do festival, Martha havia encontrado uns amigos, e John estava com eles. Esse foi o primeiro momento que Sophie e John se viram. Ela ainda podia se lembrar dos cabelos revoltos de John e de seu sorriso sincero.
Não foi necessário muito para que se apaixonassem, talvez fosse amor, talvez fosse uma apaixonite juvenil ... Sophia nunca soube ao certo, só soube que nunca mais sentiu algo parecido por outro homem.
Sentada em sua poltrona reclinável de couro, Sophia se lembrava das músicas em protesto contra o capitalismo, consumismo e a guerra do Vietnã. Recordava-se de toda aquela ideologia, que parecia perfeita ao lado de John, que para ela provara que o amor é o remédio para tudo.
Refletindo, com um sorriso no rosto, ela pensava: “Tudo aquilo parecia ser de outra era, um sonho. Várias pessoas unidas defendendo uma mesma ideologia; ‘Make  Love Not War’ (Faça amor, não guerra) soavam tão naturalmente, e tudo isso acompanhado de um amor repentino. Hoje as pessoas parecem cavalos selados, não possuem visão periférica muito menos são donos de si mesmo. O engraçado é que eu me encaixo nesse mesmo grupo, era tão dona de si...Me tornei aquilo que tanto protestei contra”.
Ela realmente mudou. Aderiu o sistema, aceitou. Por um tempo esqueceu toda aquela ideologia hippie, isso depois que John morreu. Ele morreu duas semanas depois do festival, teve uma overdose. Quatro semanas depois da morte dele descobriu que estava grávida. Tinha um filho para criar, então deixou tudo aquilo repousar no passado. Depois que Jorge nasceu, Sophie se dedicou apenas em criar seu filho e em seu trabalho, nada mais.
Não havia tempo para o passado, passado que parecia não fazer mais parte de sua vida. Mas de John ela nunca esqueceu, até mesmo porque Jorge tinha o mesmo sorriso que o pai.