segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Filme particular

"In my brain, oh I can see you face again, I know my frame of mind, yeah. But nobody, nobody has to ever be so blind". - Janis Joplin

Capa do álbum Woodstock 69; casal Nick e Bobbi Ercoline.

O dia estava terminando, Sophia estava em seu apartamento na zona sul de São Paulo, com os pés para o alto e tomando uma xícara de chá. Seu dia havia sido corrido e cansativo, como sempre.
Naquele momento ela assistia a um filme, filme muito particular esse, restrito a seus olhos, apenas, e produzido por suas lembranças. Lembranças do Woodstock 69.
Suas lembranças não falhavam, ela se recordava muito bem da chuva, da lama, das drogas, da multidão, dos shows... E se lembrava também de John.
Naquela época Sophia tinha ido passar uns tempos em Nova York quando estourou a noticia de que iriam fazer um festival de rock na fazenda Bethel. Sua amiga, Martha, estava decidida a ir ao festival, e levou Sophia junto.
John era um hippie vindo de Seatle, pouco se sabia dele. Ele dizia que era um desconhecido para si mesmo. Ele havia conseguido chegar a NY pegando caronas.
Logo na entrada do festival, Martha havia encontrado uns amigos, e John estava com eles. Esse foi o primeiro momento que Sophie e John se viram. Ela ainda podia se lembrar dos cabelos revoltos de John e de seu sorriso sincero.
Não foi necessário muito para que se apaixonassem, talvez fosse amor, talvez fosse uma apaixonite juvenil ... Sophia nunca soube ao certo, só soube que nunca mais sentiu algo parecido por outro homem.
Sentada em sua poltrona reclinável de couro, Sophia se lembrava das músicas em protesto contra o capitalismo, consumismo e a guerra do Vietnã. Recordava-se de toda aquela ideologia, que parecia perfeita ao lado de John, que para ela provara que o amor é o remédio para tudo.
Refletindo, com um sorriso no rosto, ela pensava: “Tudo aquilo parecia ser de outra era, um sonho. Várias pessoas unidas defendendo uma mesma ideologia; ‘Make  Love Not War’ (Faça amor, não guerra) soavam tão naturalmente, e tudo isso acompanhado de um amor repentino. Hoje as pessoas parecem cavalos selados, não possuem visão periférica muito menos são donos de si mesmo. O engraçado é que eu me encaixo nesse mesmo grupo, era tão dona de si...Me tornei aquilo que tanto protestei contra”.
Ela realmente mudou. Aderiu o sistema, aceitou. Por um tempo esqueceu toda aquela ideologia hippie, isso depois que John morreu. Ele morreu duas semanas depois do festival, teve uma overdose. Quatro semanas depois da morte dele descobriu que estava grávida. Tinha um filho para criar, então deixou tudo aquilo repousar no passado. Depois que Jorge nasceu, Sophie se dedicou apenas em criar seu filho e em seu trabalho, nada mais.
Não havia tempo para o passado, passado que parecia não fazer mais parte de sua vida. Mas de John ela nunca esqueceu, até mesmo porque Jorge tinha o mesmo sorriso que o pai.

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